Deixemos de dar valor
ao que não tem valor.
Deixemos de angariar
respostas aonde o chão é seco e árido.
Deixemos de imaginar
seres imaginários e os culparmos por nossos fracassos e por nossas
fraquezas.
Deixemos de repetir
palavras vãs em ocasiões de silêncio...
Deixemos de silenciar
quando não houver necessidade, não façamos silêncio apenas por falta de
palavras.
Deixemos pelo caminho
o que houver de ficar pelo caminho.
Deixemos de carregar
os pesos de nossa vida imaginária, não é preciso postergar a dor que não
existe.
Deixemos de lado,
todo e qualquer sentimento inferior ao Espírito livre – eis o que nos torna padrão
do padrão.
Deixemos de lado os
partidos e as posses e as pessoas. Devemos nos aproximar do que se aproxima de
nós.
Deixemos de cantar
cantigas alheias. A arte que nos compreende é sempre a que mais nos deprime.
Deixemos de ler e
escrever o que for do sentir, do saber, do falar, do pensar, do agir. As linhas
- deve nos bastar as considerações sem rumo e sem sentido, apenas divagações.
Deixemos de
menosprezar o que não é digno de existência.
Deixemos de festejar
o que não deve ser festejado - Qual é teu motivo de festa?
Deixemos passar a
raiva e a dor - quando no caminho encontrar alguém que lhe mereça escutar
murmúrios e des-palavras, respirai...
Este é o exercício da sabedoria. Não gaste com discórdias o que lhe convém
armazenar gota a gota.
Deixemos de lado,
também, as questões do amor – quando na necessidade da razão e por motivo dela.
Deixemos os fracos e
os doentes e os pobres de espírito onde estiverem. Será este o lugar que lhes
merece. Não ouse estender a mão a quem não quer ser retirado do abismo; isto
seria desleal...
Deixemos de lado: os
comprimidos e os xaropes e as bulas e as seringas. Não é de bom tom anular
artificialmente a dor. A real força esta também no re-existir.
Quando fechar os
olhos, feche-os com força. Não permita que a luz retire tua paz nem que teu
brilho ofusque teus sonhos.
Quando abrir a boca,
diga palavras dignas; mesmo que sejam estas mais duras que outras. Porém,
quando a fechar, mantenha-se altivo e atencioso.
Quando lhe pedirem o
ombro, ofereça; mas antes, certifique-se de que não lhe inundarão com lágrimas
tolas.
Quando lhe
repudiarem, agradeça.
Quando lhe caçoarem,
ria.
Quando lhe negarem
abrigo, negue compaixão.
Quando lhe
perguntares, responda apenas o necessário. Não desperdice tuas palavras – um
dia elas podem te faltar.
Quando estiverem em teu
encalço, dirija-se então na direção oposta a que lhe convém. Mas vale olhar nos
olhos de teu perseguidor, do que ignorá-lo.
Sê brando, mas também
abrasivo.
Sê sábio - não tente
entender o que não se explica.
Sê corajoso –
enfrenta-te a ti mesmo quando houver necessidade.
Sê só – quando uma
multidão não lhe for suficiente.
Pratique a amizade,
não a piedade.
Pratique o amor ao
que lhe ama, mas não se deixe levar pelas artimanhas da paixão.
Pratique a despedida,
mas nunca ofusque de tua memória o teu passado.
Pratique a razão.
Pratique a liberdade.
Pratique o pensar e o
distanciamento.
Pratique a solidão –
por vezes.
Antes de conceituar,
respire.
Antes de gritar,
cale.
Antes de bater,
revide.
Antes de mergulhar,
queira saber qual a profundidade da bacia.
Por Matheus Borges