quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ió, Oswald (Vida e Obra)


"Este documentário produzido através do projeto-programa "De Lá Pra Cá" oferece uma bela apresentação sobre a vida e a obra do Poeta e Modernista brasileiro, Oswáld de Andrade. Esse poeta possui uma forte presença na Semana de Arte Moderna de São Paulo e produziu excelentes obras sobre a Identidade do Brasil, resgatando e valorizando o mais simples como o Português Popular , entre outras coisas do nosso Brasil."
Fonte: Canal tvbrasil.

domingo, 8 de abril de 2012

Dê-i-xe


Deixemos de dar valor ao que não tem valor.
Deixemos de angariar respostas aonde o chão é seco e árido.
Deixemos de imaginar seres imaginários e os culparmos por nossos fracassos e por nossas fraquezas. 
Deixemos de repetir palavras vãs em ocasiões de silêncio...
Deixemos de silenciar quando não houver necessidade, não façamos silêncio apenas por falta de palavras.
Deixemos pelo caminho o que houver de ficar pelo caminho.
Deixemos de carregar os pesos de nossa vida imaginária, não é preciso postergar a dor que não existe.
Deixemos de lado, todo e qualquer sentimento inferior ao Espírito livre – eis o que nos torna padrão do padrão.
Deixemos de lado os partidos e as posses e as pessoas. Devemos nos aproximar do que se aproxima de nós.
Deixemos de cantar cantigas alheias. A arte que nos compreende é sempre a que mais nos deprime.
Deixemos de ler e escrever o que for do sentir, do saber, do falar, do pensar, do agir. As linhas - deve nos bastar as considerações sem rumo e sem sentido, apenas divagações.
Deixemos de menosprezar o que não é digno de existência.
Deixemos de festejar o que não deve ser festejado - Qual é teu motivo de festa?
Deixemos passar a raiva e a dor - quando no caminho encontrar alguém que lhe mereça escutar murmúrios e des-palavras, respirai... Este é o exercício da sabedoria. Não gaste com discórdias o que lhe convém armazenar gota a gota.
Deixemos de lado, também, as questões do amor – quando na necessidade da razão e por motivo dela.
Deixemos os fracos e os doentes e os pobres de espírito onde estiverem. Será este o lugar que lhes merece. Não ouse estender a mão a quem não quer ser retirado do abismo; isto seria desleal...
Deixemos de lado: os comprimidos e os xaropes e as bulas e as seringas. Não é de bom tom anular artificialmente a dor. A real força esta também no re-existir.

Quando fechar os olhos, feche-os com força. Não permita que a luz retire tua paz nem que teu brilho ofusque teus sonhos.
Quando abrir a boca, diga palavras dignas; mesmo que sejam estas mais duras que outras. Porém, quando a fechar, mantenha-se altivo e atencioso.
Quando lhe pedirem o ombro, ofereça; mas antes, certifique-se de que não lhe inundarão com lágrimas tolas.

  
Quando lhe repudiarem, agradeça.
Quando lhe caçoarem, ria.
Quando lhe negarem abrigo, negue compaixão.
Quando lhe perguntares, responda apenas o necessário. Não desperdice tuas palavras – um dia elas podem te faltar.
Quando estiverem em teu encalço, dirija-se então na direção oposta a que lhe convém. Mas vale olhar nos olhos de teu perseguidor, do que ignorá-lo. 

Sê brando, mas também abrasivo.
Sê sábio - não tente entender o que não se explica.
Sê corajoso – enfrenta-te a ti mesmo quando houver necessidade.           
Sê só – quando uma multidão não lhe for suficiente.  

Pratique a amizade, não a piedade.
Pratique o amor ao que lhe ama, mas não se deixe levar pelas artimanhas da paixão.
Pratique a despedida, mas nunca ofusque de tua memória o teu passado.
Pratique a razão.
Pratique a liberdade.
Pratique o pensar e o distanciamento.
Pratique a solidão – por vezes.

Antes de conceituar, respire.
Antes de gritar, cale.
Antes de bater, revide.
Antes de mergulhar, queira saber qual a profundidade da bacia. 




Por Matheus Borges

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Baixio / "Canto pra (não) despertar (alguém)”

Inspira-dor!
Motiva-dor...
Conspira-dor.
Tranforma-dor; retifica-dor;

 Cria-dor...
Imagina-dor.
Monta-dor; pesquisa-dor;
Espreita-dor.
  
Move-dor, Re-move-dor;
Ama-dor!...
Reverbera-dor.
Conspira-dor!
  

(Condor)

  
Arma-dor; idealiza-dor;
Atira-dor? Veleja-dor?

 Trabalha-dor...
Escava-dor...
Planta-dor...
Planeja-dor...

 Curador!
Apaga-dor!
Abate-dor!

  
(Transpassador?)

(H)à-via-dor?
Concilia-dor?
Reivindica-dor?


(Lamentador)


Ventila-dor; acalenta-dor;
Conquista-dor; dita-dor;
Ganha-dor; desgusta-dor;
  
Sonha-dor.
C(a)(o)nta-dor.
Ex-Trai-dor.

terça-feira, 3 de abril de 2012

"Mãe" [Caetano Veloso] interpretado por Cida Moreira - "Dama Indigna"


Palavras, calas, nada fiz
Estou tão infeliz
Falasses, desses, visse não
Imensa solidão
Eu sou um Rei que não tem fim
Que brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão
Que dor no coração
Cidades, mares, povo, rio
Ninguém me tens amor
Cigarra, camas, colos, ninhos
Um pouco de calor
Eu sou um homem tão sozinho 
Mas brilhas no que sou
E o teu caminha e o meu caminho 
É um nem vais nem vou
Meninos, ondas, becos, mãe
E só porque não estais
És para mim que nada mais
Na boca das manhãs
Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro, rio

...o ponto em que estamos - Não chegamos!


quinta-feira, 22 de março de 2012


Se não te amasse, amaria?
Se não te visse, veria?
Se não te sentisse, sentiria?
Se não o ouvisse, ouviria?
Se não o beijasse, beijaria?
Se não o teu corpo, o que seria?
Se não teus dedos, dedilharia?
Se não teus cabelos, bailaria?
Se não à esta vida, viveria?
Se não te respirasse, respiraria?
Se não contigo pensasse, pensaria?
Se não te falasse, falaria?
Se não me te faltasse, saudade teria?
Se não leiturasse contigo, leitura iria?
Se não me ligasses, telefone usaria?

Sim... a tudo sim(!)
Às outras vidas, lugares, livros, dedos, pelos, selos.... 
sê-los.
sem selar.
sem ser - lá...

sem endereçar, ou fazê-lo a um outro alguém.

Posso. Não o quero.

Sem teus olhos, ai de mim!

Presente de: Nara Borges ♥ para e com Matheus Borges.
(AMO-TE)

domingo, 11 de março de 2012

Divagações à Solitude


"...Há junção de dois corpos de três corpos de cinco corpo de dez corpos de cem corpos de mil corpos." 


- Quantos corpos é que são precisos pra formar um corpo? Pra perfurar um corpo? Pra penetrar um corpo? Quantos corpos são necessários para que um corpo fique em pé? Quantos corpos são necessários para que um corpo seja um corpo? Um corpo sozinho é um corpo sem corpos?


- Só um corpo... Só, um corpo. Um corpo e só. Só... 


- Quantos porcos - carne de porcos, ossos de porcos, porcos de porcos, são precisos pra criar um corpo? Um porco? Pra sujar um corpo? Dois porcos? Pra 'carnificar' um corpo? Quantos? Porcos? Quantos...


- Empurra! Empurra! Empurra! (exclamações)


- Não é possível! Não é possível! (questionamentos)


- São só corpos. Só corpos... 


- Pilhas de corpos, entulhos de corpos, esterco de corpos, multidão de corpos.


- É Paisagem...


- São corpos, Só, corpos.


[...]

"The Last Time I Saw Richard" [Joni Mitchell]

quarta-feira, 7 de março de 2012

...um certo Bukowski - e eu!?

"Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali."


*

"Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim.
Há o mundo continuando a fazer o que faz.
E eu não estou lá. Muito estranho. Penso
no caminhão do lixo passando e levando o lixo
e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim
e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível.
E pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser
verdadeiramente descoberto. E todos aqueles
que tinham medo de mim ou me odiavam
vão subitamente me aceitar. Minhas palavras
vão estar em todos os lugares. Vão se formar
clubes e sociedades. Será nojento.
Será feito um filme sobre a minha vida.
Me farão muito mais corajoso e talentoso do que
sou. Muito mais. Será suficiente para fazer
os deuses vomitarem. A raça humana exagera
em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância."



sexta-feira, 2 de março de 2012

[...] "São todos poeira de estrelas."

“Cada átomo de seu corpo veio de uma estrela que explodiu. Os átomos em sua mão esquerda provavelmente vieram de uma estrela diferente da dos átomos de sua mão direita. Essa é realmente a coisa mais poética que eu conheço sobre Física: vocês são todos poeira de estrelas. Vocês não poderiam estar aqui se as estrelas não tivessem explodido, porque os elementos, o Carbono, o Nitrogênio, o Oxigênio, o Ferro, todas as coisas que importam para a evolução não foram criados no começo dos tempos. Eles foram criados nas estrelas e a única maneira deles chegarem ao seu corpo é se as estrelas forem gentis o suficiente para explodir. Então esqueça Jesus, estrelas morreram para que você estivesse aqui hoje.”

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

“Como Deus pode consentir nisto?”


Malczewski, Melancholia (1894)

“Esta obra destina-se a muitíssimo poucos. Talvez nem sequer um deles viva ainda. Serão esses - porventura, os que compreendem o meu Zaratustra... Como poderia eu misturar-me com aqueles para quem hoje se aprontam já ouvidos? Só o depois-de-amanhã me pertence. Alguns nascem póstumos. Conheço demasiado bem as condições em que alguém me compreende e, além disso, com necessidade me compreende. Há que ser íntegro até à dureza nas coisas de espírito para aguentar a minha seriedade e a minha paixão; estar afeito a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo atual da política e do egoísmo dos povos. Importa ter-se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade... Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reter conjuntamente a sua força, o seu entusiasmo... O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade incondicional para consigo... Pois bem, só esses são os meus leitores, os meus autênticos leitores, os meus predestinados leitores: que importa o resto? O resto é simplesmente a Humanidade. Há que ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo...”

Friedrich Nietzsche
(Prólogo - "O Anticristo" )

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Linhas do Vago Espírito


A despudorada luz da noite bateu à porta;
Quente, úmida. Sem abrir a boca,
Estendeu os braços raquíticos
Em direção ao dia... Leve.

Um relógio enguiçado faz frente ao
Batente carcomido que
Separa os quintais...
- Dependurado; pesado, parado.

A chuva insistente deu seu espaço
Para alguns “avisos sonoros”
- Uma criança passa correndo,
Gritando a procura da mãe.

- Um pássaro “mia” do céu
Escuro - sem estrelas, da noite
Que pensa ser dia... Eu,
Acordado – penso, escuto.

Acaricio os cabelos suavemente.
- O suor forma uma certa ‘crosta’ de
Espasmos e torna a moldura
Craniana rígida e sebosa...
  
O ombro direito dói um pouco...
Pouco! Hoje não é muito – é suportável.
A postura desengonçada craveja no
Corpo a dor... E no Espírito?

Continuo acariciando os cabelos.
- Alguns mosquitos sobrevoam meu
Dia... O sono começa pedir
Passagem... E o Espírito?

Cheiro à tinta fresca; sem
Querer – costume, olho para o
Relógio inoperante. Roço a
Língua entre a gengiva e o beiço inferior.

- Repito as palavras como um mantra.
- Repito as palavras; como um mantra
De linhas... Repito, as palavras estão
Nas linhas... E o Espírito? – Não! 

[Capítulo IV - Fragmento]

domingo, 19 de fevereiro de 2012

“O indivíduo congênito dentro do homem e seu duplo comido vivo de dentro para fora”


Cada homem tem dentro de si um duplo inatingível. Ele só se deixa perceber quando faz frente a um espelho... Quase um irmão – gêmeo; outra vida vivendo em par com a pré-estabelecida. Tão virtuosa quanto complexa, penetra-se no âmago do ser e lá faz seu ninho de camadas irreconhecíveis. Eu o enxergo na figura dúbia de Narciso – o homem ornamental que todo Homem tem a capacidade de admirar. Eu o enxergo na moldura convexa da Monalisa, de Da Vinci. Eu o venero no busto de Sapho, quando entre milhares fez nascer ali, a síndrome.
O ser-hermafrodita que habita dentro do ser-inconsciente é um figural de proporções modestas no que tange a intersecção absoluta do conjunto de personificações em nós latentes. É como a Via Láctea; milhões de rastros que levam a lugar nenhum. É um casebre abandonado e escuro repleto de insetos cascudos e lamparinas mal acesas. Quando na vida escolhemos “ser ou não ser” (?), imediatamente anelamos nossas faces a uma contemplação (quase) estética/sublime do mundo – ou de nós mesmos para com o mundo.
Factualmente, é como se disséssemos - inocentes: “Quando meus olhos me enxergarem ante ao espelho, a imagem que verão de mim mesmo é a seguinte...” – e dizendo isso, abre um sorriso, estampa a figura (não só no espelho, mas também na consciência absoluta e robusta do ‘Ser’).

- Quantos de nós somos imortais - dentro de nossos próprios corpos ao avesso?

Os vermes e os fungos nos devoram de dentro para fora. Sugamos oxigênio e somos delatados. Engolimos saliva e somos rechaçados... Quantos de nós?


[Fragmento]